segunda-feira
01 de junho de 2009
A felicidade de Agnès
Falei
em 'A Hora do Lobo' como um belo Bergman, no sentido
da beleza visual mesmo, e me lembrei de que ontem, na
Cultura, dei uma olhada na estante de DVDs e lá
estava, entre 1001 (outros) títulos, 'Le Bonheur'.
Já me havia referido aqui, em outra ocasião,
ao filme de Agnès Varda, de 1963, lançado
no Brasil como 'As Duas Faces da Felicidade', justamente
por sua beleza visual. A cor naquele filme é
uma coisa maravilhosa, uma explosão de luz solar
que a diretora embala na música (Mozart) para
contar a história desse homem que atinge sua
plenitude viril com duas mulheres, a esposa e a outra,
mas a esposa não entende isso - talvez por sua
mentalidade pequeno-burguesa - e faz uma radical saída
de cena. De certo, ela esperava que ele fosse feliz
com a outra, mas na verdade ela condena o personagem
à infelicidade e muito bem pode ser uma derradeira
vingança, saber que ele não conseguirá
ser plenamente feliz só com uma. Não me
lembro se, na época do post anterior, vocês
comentaram que 'As Duas Faces da Felicidade1' havia
sido lançado em DVD no Brasil. Pois foi. Comprem,
vejam. E rezem para que passe aqui o novo filme de Varda,
'Les Plages d'Agnès', uma obra-prima (eu achei).
As
informações são do jornal O Estado
de S.Paulo. - Por Luiz Carlos Merten, Seção:
Cinema 13:37:15.
quarta-feira,
25 de fevereiro de 2009,
Lançado em DVD 'As Troianas',
de Michael Cacoyannis
Michael Cacoyannis foi muitas vezes criticado pelo envolvimento
em coproduções internacionais que comprometem
a autenticidade de seu trabalho. Mas como ele poderia
ter agido de outra forma, na falta de capital grego para
fazer seus filmes? Cacoyannis é o cineasta por
excelência da Grécia e uma de suas principais
obras, As Troianas, é lançado em DVD pela
CultClassic. Cacoyannis começou (neo)realista nos
anos 50. No começo dos 60, iniciou com Electra
a sua série de tragédias, que prosseguiu
com As Troianas em 1971 e Ifigênia em 1976. Embora
desiguais, os três filmes compõem um bloco
coerente.
As
Troianas, infelizmente, está sendo lançado
sem os extras que um filmes desses poderia oferecer. Na
época, há mais de 30 anos, Paulo Francis
criticou duramente a multiplicidade de sotaques das atrizes
que Cacoyannis escolhera - a norte-americana Katharine
Hepburn, a inglesa Vanessa Redgrave, a franco-canadense
Geneviève Bujold e a grega Irene Papas. Mas até
Francis se rendeu à força da tragédia
grega, fundada na retórica, mais do que no lirismo.
Os longos discursos de Eurípides passam para o
espectador, que sente a força do texto e termina
por entregar-se às grandes atrizes.
As
Troianas trata dessas quatro mulheres - Hécuba,
Cassandra, Helena e Andrômaca - , após a
derrota do Exército de sua cidade na guerra contra
os gregos. As mulheres derrotadas estão prestes
a ser entregues como troféus aos vencedores. São
rainhas e princesas, mas diante delas se descortina uma
vida de escravidão e, pior do que isso, degradação.
Encontra-se aí a essência do teatro de Eurípides.
Na obra desse grande fatalista, a dor do homem vencido
nunca é consequência da condição
humana e, sim, sofrimento que seus personagens não
merecem.
As
informações são do jornal O Estado
de S.Paulo.